
Segundo informações do site Infoanimation, que entrou em contato com o Maurício de Sousa, o encontro dos sonhos entre Mônica, Cebolinha & Cia e os inesquecíveis personagens de Osamu Tezuka está a todo vapor.
O criador da Turma da Mônica revelou que está de viagem marcada para a sede Tezuka Productions, no Japão. Na bagagem estarão as primeiras pranchas do projeto a serem examinadas pelos editores da empresa.
E para relembrar a amizade entre Maurício de Sousa com o lendário criador de A Princesa e o Cavaleiro e Astro Boy, resgatamos uma entrevista exclusiva concedida por ele para a edição n°30 da revista Henshin, em 2002.
Confira a primeira parte da entrevista por Edi Carlos.
Henshin: A Turma da Mônica tem alguma influência do mangá japonês?
Mauricio: Não totalmente, mas em termos. Quando comecei a fazer história em quadrinhos, não se falava em mangá, que era uma coisa muito distante e desconhecida naquela época. Mas, com o passar do tempo, os auxiliares que eu fui contratando, muitos deles descendentes de japoneses, foram enquadrando o meu traço, que era mais largado, à sofisticada arte-final dos mangás.
Henshin: É verdade que há quem considere os gibis da Turma da Mônica os mangás brasileiros?
Mauricio: Quem fez essa comparação foi o pessoal do Japão. Nosso desenho era diferente, brasileiro, e tudo mais. Mas existia um toque ligado aos quadrinhos japoneses. Era um desenho com os personagens de olhos grandes e traços limpos como os do mangá – tudo isso devido a meus arte-finalistas, em sua maioria nisseis, que tiveram uma forte influência de tal material. Meu primeiro auxiliar, Paulo Hamazaki, tinha todo esse estilo da arte-final japonesa.
Henshin: Seu primeiro trabalho publicado no Japão foi o Horácio. Como foi a repercussão? Não houve proposta de transformá-lo em anime?
Mauricio: Naquele tempo, não. A produtora Sanrio, naquela época, só trabalhava com licenciamentos e quadrinhos, ainda não tinha nada em animação. Eu também cheguei a conversar com o pessoal da Toei Animation, mas eles já tinham uma série de personagens para serem animados, e um brasileiro não teria uma chance. Então, naquele tempo, não dava, mas hoje estamos conversando sobre essa possibilidade.
Henshin: Qual foi seu primeiro contato com uma produção japonesa, mangá ou anime?
Mauricio: Foi quando fui ao Japão e conheci alguns dos principais desenhistas e estúdios do país, mas principalmente quando conheci o desenhista Osamu Tezuka, que é o pai da animação japonesa e o mentor do mangá. Depois todos os outros seguiram seus passos. Esse foi meu primeiro contato.
Henshin: Vocês chegaram a produzir alguma coisa juntos?
Mauricio: Ele havia combinado comigo de lançar um filme, onde seus personagens estariam juntos de toda a Turma da Mônica. Mas ele deu a grande “mancada” de morrer, e o projeto não foi realizado. Hoje estamos conversando com a Tezuka Produções para alavancar alguns projetos.
Henshin: Como era sua amizade com Osamu Tezuka?
Mauricio: Quando fui ao Japão, eu conheci o Sr. Tezuka. Participei de entrevistas com ele na TV, e ele me levou para conhecer sua cidade natal. Por sinal, da última vez que fui ao Japão, visitei a cidade natal dele – isso há muitos anos. Depois disso ele morreu. Mas antes ele veio ao Brasil, foi conhecer a Amazônia e, nessa ocasião, o levei ao meu sítio. Posteriormente, fui convidado para ir à festa de 40 anos de sua carreira. Foi uma festa monumental. Eu até fiz um discurso em japonês – e tudo era cronometrado. Eu tinha de falar no máximo por dois minutos.
Henshin: Vocês trocaram muitas idéias?
Mauricio: Nós batemos grandes papos. É claro que eu em português e ele em japonês – tínhamos a ajuda de um intérprete. Numa dessas conversas, Tezuka me falou sobre um pequeno arrependimento, de ter introduzido a violência em suas obras. Ele era um humanista, era médico, inclusive, mas, devido às circunstâncias e à pressão das editoras, ele teve de jogar violência nas histórias. Por isso que em seus últimos anos de vida as obras falavam somente de amor e paz. Ele também começou a dizer para seus seguidores largarem a linha agressiva.
Henshin: Ele deu a você algum conselho nesse sentido?
Mauricio: Ele falava para mim: “Mauricio, suas histórias são o que eu gostaria de estar fazendo hoje. Pela filosofia e pelos valores, era o que eu deveria fazer. Então, se você puder não sair disso por qualquer dinheiro ou crise do mundo, não saia. Eu me matei por causa disso e agora abomino essa idéia. Hoje eu faço o que gosto, mas, infelizmente, não tenho tanto tempo para trabalhar”. E ele nem estava doente quando disse isso para mim.
Henshin: Esse foi o seu último encontro com ele?
Mauricio: Não. Quando fui ao Japão pela última vez, marquei de vê-lo. Mas Tezuka não apareceu. Toda vez que eu ligava, a secretária dizia que ele estava ocupado ou que estava em “algum” lugar. Isso não é usual no Japão, se você marcou um compromisso, tem de cumprir, principalmente se for com um amigo. Então um dia me telefonaram marcando um encontro com ele no hotel Hakazaka. Fui lá e, depois de um tempo, ele chegou acom-panhado de um amigo, que hoje é um dos diretores da Tezuka Produções. Osamu estava muito diferente, magro e envelhecido, não estava nada bem. Mas, quando ele me viu, acabou dando uma animada e começou a falar dos planos, inclusive sobre a idéia de fazer um desenho animado juntando os nossos personagens. Ele falou que estava meio doente, mas que estava se tratando e que, quando melhorasse, iria tocar o projeto. Ele se animou, falou muito do projeto e depois foi embora. Quando voltei ao Brasil, soube que ele havia morrido e que, naquele dia que se encontrou comigo, havia fugido do hospital para ir ao meu encontro. Tezuka não me falou nada do seu estado, do quanto estava doente e nem que estava com câncer.
