Um dia de samurai

Desde o ano passado, em São Paulo, 24 de abril é o “Dia do Samurai”. A data, que faz parte do calendário oficial da cidade, é uma homenagem aos guerreiros do Japão. Confira a aventura do repórter que passou um dia de samurai nos lendários estúdios da Toei Eiga-mura, em Kyoto

por Redação Henshin
24.04.2007
Luiz Kobayashi
Reprodução de vila japonesa do tempo dos samurais

“Uzumasa!” Não fosse a gravação no ônibus de Kyoto – daquelas no melhor estilo gravação de aeroporto – indicando o ponto que eu deveria descer, acho que nunca seria capaz de ler aqueles ideogramas corretamente. Aquilo, para mim, poderia ser tudo mas nunca “Uzumasa”. Acontece que era.

Luiz KobayashiKobayashi encarna um verdadeiro samurai na entrada do quartel-general do ShinsengumiLá estava eu, juntamente com um japonês, uma chinesa, um rapaz de Bangladesh e uma garota do Laos descendo do ônibus no ponto Uzumasa Eiga-mura Mae às 12h de um dia ensolarado de inverno. Nosso destino: o Toei Eiga-mura, literalmente o “vilarejo dos filmes” da Toei, uma das maiores companhias cinematográficas do Japão, ao lado da Toho e da Shochiku.

O estúdio não é nem de longe um dos pontos turísticos mais famosos da tradicional Kyoto. Quem vai à cidade geralmente visita o Kinkakuji, o fabuloso Templo Dourado, o Ginkakuji, conhecido como Pavilhão de Prata, o Castelo Nijo e o antigo Palácio Imperial, por exemplo. Poucos pensam em se deslocar para o oeste da cidade e chegar até o local afastado onde fica o Eiga-mura.

Luiz KobayashiRoupas usadas na série de ninjas AkakageMas o que há de tão interessante lá? Para quem curte filmes de samurais, tudo. Conhecida como a Hollywood japonesa, a região de Uzumasa, cujos primórdios datam de 1926, oferece várias atrações, entre elas conhecer os sets de filmagens da Toei e andar pelo vilarejo que tem várias construções utilizadas em filmes e séries.

Antes de chegar aos estúdios, sempre imaginei que a entrada era tão glamourosa quanto a da Hollywood verdadeira, com o logotipo da Toei em letras garrafais ao céu. Qual não foi minha decepção ao me deparar com um lugar em forma de uma gigantesca caixa cinza (o Padios). Pior: tem uma parte que é murada, como um castelo medieval, onde a entrada só é permitida para visitantes em grupo. E para completar, descubro que a Super Hero Land, a área dos super-heróis, estava fechada para reforma. Sem chance para ver os Dekarangers em ação desta vez.

Luiz Kobayashi
Na seqüência de fotos nosso repórter se transforma em samurai

Mesmo assim, achei que valia o ingresso e entrei. Logo na entrada, o restaurante Chanbara chama a atenção, afinal só mesmo na Toei para existir um restaurante com um nome que significa “lutinhas de espadas”.

Luiz Kobayashi
Em apenas 30 minutos, é colocada a peruca e feita a maquiagem para encarnar um guerreiro nipônico

Luiz KobayashiPara colocar as roupas é necessária a ajuda de duas pessoasO Eiga-mura é dividido em cinco áreas: Padios Area, que compreeende a entrada, o restaurante e o museu, o Studio Area, onde ficam os sets de filmagem, o Samurai Area e o O-Edo Area, que recriam cenários histó ricos antigos, e o Eizo Area, a parte mais educacional. Falando assim, parece que é grande, mas é menor do que aparenta. O que foi ótimo, porque foi possível percorrer vários locais em poucas horas, embora tenha faltado tempo para ver tudo.

No Padios Area, há um museu com itens usados em filmes e séries da Toei, tais como Abarenbo Shogun, Mito Komon, Chushingura e Akakage. É possível comprar vários souvenires dessas séries.

Luiz Kobayashi
O lago que funciona como set de filmagem

Luiz KobayashiFachada da Hospedaria Ikeda, popularizadas na novela Shinsengumi!Saindo de lá, fui direto para a Samurai Area. Estava bem na hora de começar uma peça teatral do Shinsengumi!, no espaçoso teatro Nakamura-za. A peça, de 20 minutos de duração, mostra o “Incidente da Hospedaria Ikeda”, o mais famoso episódio do Shinsengumi! Foi sensacional ver ao vivo algo que só tinha assistido na TV.

Luiz KobayashiO interior da Hospedaria IkedaA entrada dos atores no palco é peculiar: eles correm por entre os espectadores para subir ao palco e literal mente despencam das escadarias e caem, sem que os espectadores vejam, em um colchão inflável. O melhor é que pude filmar e fotografar tudo, algo que não é muito comum nesse tipo de apresentação.

Luiz KobayashiA entrada de um vilarejo histórico do início do século XXApós deixar o teatro, olhei para a direita e vi uma piscina com “moradias antigas” ao redor, que simulam casas à beira de rios e até um porto improvisado. A piscina também é usada como fonte de água para as cenas de chuva. O curioso é que, a cada 10 minutos, um bicho estranho surge da água!

Continuando o passeio, foi muito divertido “visitar” os locais que aparecem nas séries de TV. É impossível não se sentir “dentro” de uma produção histórica.

Luiz KobayashiExposição dos objetos usados nas séries históricas, como o tambor tilizado pelo protagonista da série ChushinguraEm seguida, passei em frente a uma loja de cosplay profissional. Em outras palavras, você se fantasia como uma pessoa do século XIX ou de períodos mais antigos. O preço da aventura é absurdamente alto, mas não resisti. Deixei as minhas coisas em um armário e fui para o abate.

Foi a primeira vez que passei base e lápis na minha vida. Aliás, passaram em mim. Há uma maquiadora profissional da Toei que “embeleza” a pessoa para a fantasia. O processo em si é meio demorado, mas fiquei irreco nhecível. Sem contar a peruca que colocam no final! A parte difícil de tudo isso é segurar o riso durante a maquiagem, porque é algo tão surreal que é quase impossível não cair na gargalhada.

Luiz KobayashiTeatro Nakamura-za, onde são apresentadas as peças que encantam os turistasSem contar que duas pessoas me vestiram com as roupas da época com uma velocidade que eu não julgaria capaz. O resultado… ficou sensacional. Poderia sair direto para uma convenção de anime.

Devidamente vestido a caráter, andei um pouco pelo Eiga-mura e, confesso, fui alvo de várias fotos. Já estava me sentindo um personagem quando tive de voltar correndo porque o estúdio iria fechar e eu ainda tinha que me “desmaquiar”.

Luiz KobayashiA seção dos super-heróis com Kamen RiderTroquei de roupa e passaram um creme para tirar a minha maquiagem. Embora muito eficaz, o creme deixou os meus olhos ardendo durante horas. Mesmo assim valeu a pena andar em um set histórico vestido da cabeça aos pés como um personagem da época dos samurais.

O esforço compensa, afinal não é todo dia que alguém pode se dar ao luxo de fazer essa viagem no tempo.

Reportagem: Luiz Kobayashi

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