Um dia de dublador

Acompanhamos Raquel Marinho durante um dia inteiro

por Redação Henshin
20.07.2005

050720_diaadia.jpgCada vez mais os fãs de heróis japoneses se interessam em seguir a carreira de dublador. E muitas vezes, movidos pela emoção, acabam achando que dublar é uma tremenda moleza, que esse é o melhor trabalho do mundo e que podem viver apenas fazendo desenhos animados. Mas a realidade não é bem assim.

Para mostrar como é um dia normal na vida dos dubladores, a Henshin acompanhou Raquel Marinho, a Chi Chi de Dragon Ball Z, durante um dia inteiro e comprovamos: não é nada fácil ser dublador!

Começa o dia
Raquel Marinho começou a dublar com 17 anos. Mesmo sabendo que teria um começo muito penoso, ela não desistiu e foi até o fim. Hoje ela já está na área há seis anos, possui uma boa experiência em dublagem e, como recompensa, uma agenda cheia de trabalho e uma vida muito corrida.

Sua maratona de compromissos começa bem cedinho - apesar dela sempre tentar negociar com os estúdios para que suas escalas sejam um pouco mais tarde. Antes de sair, ela consegue tempo para alguns exercícios e um aquecimento vocal - quando não tem o tempo necessário, ela faz isso no carro mesmo. Raquel dubla em quase todos os estúdios de São Paulo, e cada um fica em um canto da cidade, por isso ela perde muito tempo no trânsito.

A primeira escala
Chegamos às 11h30 nos estúdios da Lipsinc, na região do Pacaembu. Esta é a primeira escala de Raquel. Pergunto se ela sabe o que vai dublar. “Não, é muito difícil saber antes o trabalho que vou fazer”. Ela apenas sabe que vai ser uma ponta (um pequeno papel) e que vai durar apenas 15 minutos. Enquanto esperamos, aparece no estúdio o já conhecido Marcelo Campos, dublador do Trunks “do futuro” de Dragon Ball Z, do Shurato e do Mu de Áries. Ele também só fará uma ponta de apenas 15 minutos e descobre que terá Raquel como companheira de estúdio. As pontas dos dois são no filme Heaven, sob a direção de dublagem de Eduardo Camarão. Raquel faz uma secretária, mas nem sabe seu nome. Marcelo fez um cara que estava jogando poquer e só disse uma frase. Mesmo com um papel tão pequeno, uma série de atrasos deixou Raquel presa no estúdio por uma hora.

Depois de terminado o trabalho, partimos para os estúdios da Dubla Vídeo. No caminho, pergunto à Raquel se todos os dubladores aceitam fazer pontas tão pequenas numa boa. Ela, então, conta que “talvez alguns profissionais mais experientes não aceitem papéis tão pequenos. Mas para os novatos é sempre bom fazer de tudo, senão pode começar a aparecer alguns comentários do tipo: ‘a Raquel não faz ponta’”.

A estranha de Mysterious Ways
050720_diaadia_02.jpgChegamos na Dubla Vídeo e, pelo que pude sentir, essa é uma das casas mais queridas pelos dubladores. Foi lá, inclusive, que Raquel começou a trabalhar com dublagem.

Encontramos muitos dubladores ali, entre eles Leda Figuerol, a mentora de Raquel em seus primeiros passos na dublagem. Também vimos Marilisi (a Shina de Cavaleiros do Zodíaco) e o senhor Daoiz (o narrador das aventuras de Dragon Ball Z).

Dessa vez a nossa dubladora do dia sabia muito bem o que e quem iria dublar. Ela iria trabalhar em uma série de TV chamada Mysterious Ways (Caminhos Misteriosos). Sua personagem era a estranha Miranda, que Raquel diz adorar fazer.

Para dirigi-la estava escalado o simpático Sérgio Galvão. Quando olho para o relógio percebo que já são quase duas horas da tarde e, pelo jeito, ainda estávamos loge de uma pausa para almoçar, pois Raquel teria cerca de uma hora e meia de estúdio na Dubla Vídeo.

No estúdio, a primeira impressão é que tudo vai ser uma grande chatice, mas sucessivas brincadeiras acabam quebrando o gelo. Tivemos sorte de contar com um diretor brincalhão, já que, segundo a Raquel, nem todos são assim. Outro profissional muito importante no processo de dublagem é o técnico, responsável por gravar o som, soltar as cenas e auxilar o diretor. Dessa vez o técnico era uma mulher, a Flávia. Ela mostrou ser muito competente e experiente em seu trabalho. Percebia desde um simples ruído a um desequilibrio no tom de voz da atriz. Quando isto acontecia, tudo era refeito.

É hora do lanche
Uma hora e meia depois, Raquel solta um grito: “Finalmente, estou com fome!”. Era o fim da primeira metade do dia. Nessa altura do campeonato, já eram quase quatro da tarde.

Assim, fomos nos despedindo de todos e partimos em direção à Álamo - o almoço seria no meio do caminho.

Chegamos a uma padaria e, apesar do pouco tempo, conseguimos fazer um lanchinho. A dubladora explica que é normal não ter tempo para uma refeição de verdade. “ Sei que isso não é legal para saúde, mas não dá tempo”.

De fato, o tempo é curto e o compromisso na Álamo é às 16h30. Faltam apenas 15 minutos e temos que pegar mais um táxi.

A parte mais rica da empresa
050720_diaadia_03.jpgChegamos na lendária Álamo. Raquel sabe que vai fazer vozes para um longa-metragem e que o diretor seria Wellington Lima, o Majin Boo. A Álamo é a maior dubladora em São Paulo.

Entrando no prédio, subimos dois andares pelas escadas. Chegamos a um corredor com uma série de salas - o lugar parece um labirinto. Alguns minutos depois, estávamos dentro de um dos estúdios da Álamo. Raquel está muito alegre e empolgada. O diretor passa a informação de que o filme é de época, então as girias estão proibidas. Tem início as duas horas de dublagem do filme Dra. Quinn, no qual Raquel faz Colleen, uma médica recém-formada. Nesse trabalho começamos ver a importancia da direção e como alguns textos são alterados ou cortados. Em algumas falas Raquel tem muita dificuldade para acertar na sincronia. A dubladora às vezes se irrita e perde a pose - é impossivel não dar alguns gritos de raiva. O diretor sempre auxilia, dizendo se ela demorou ou se adiantou na fala. Algumas palavras são ditas com frequência: “passa”, “vou tentar”, “gravando”.

Em um loga-metragem como esse, os dubladores fazem um pequeno intervalo para um café - Raquel estava morrendo de sede. Também pudera, não é fácil ficar o tempo todo trancada naquele estúdio sem uma pequena pausa sequer. Depois do café, voltamos ao estúdio para terminar o trabalho. No segundo tempo, tanto o diretor quanto a dubladora são surpreendidos por uma traqueotomia (aquela cirurgia onde se faz um corte na garganta para que a pessoa respire), que ocorria no filme - “Não quero nem ver”, comentou a dupla antes de retomar a dublagem.

O fim do dia
O tempo programado para a escala de Raquel era de duas horas, mas foi preciso esticar um pouquinho mais. Foram cinco minutos, mas já é o suficiente para atrasar a vida de todos.

Logo que o trabalho terminou, o diretor saiu correndo dizendo que tinha horário marcado em outro estúdio.

Já eram 19h30, o dia estava chegando ao fim, mas a maratona de Raquel ainda iria continuar, só que fora da dublagem. Agora era a hora dela ir à escola. Além de passar o dia todo correndo de um lado para o outro, Raquel ainda consegue pique para assistir aulas de pintura na Escola Panamericana de Artes. Depois da aula, nossa convidada chega em sua casa mais ou menos 11 da noite, onde um bom banho encerra o seu dia. Ufa! Haja fôlego para ser dublador!

Ouça aqui um recadinho da Raquel. (MP3)

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