José Otávio Guarnieri, o popular Tatá Guarnieri, é um dos dubladores mais requisitados pelos estúdios de São Paulo, afinal ela é nada mais, nada menos que o dono da voz de Kenshin Himura, o Battousai de Samurai X. Ele nos recebeu nos estúdios da Dublavídeo e falou dos vários personagens para quem emprestou sua voz de galã. Em seu currículo dois personagens bem conhecidos dos brasileiros: o Siegfried, o mais poderoso Guerreiro Deus da segunda fase de Cavaleiros do Zodíaco, e o super-herói Metalder.
Como foi o seu começo na dublagem?
Eu dublo há quinze anos. E no início eu trabalhava na TV Cultura como músico. Acabei fazendo um curso de teatro e virei ator. Nessa época, na TV Cultura, fiz um programa infantil, o Catavento, onde eu era produtor musical e também comecei a atuar, fazendo alguns pequenos papéis. Desta forma, acabei desenvolvendo o meu lado ator. Na TV Cultura também trabalhava o Jorge Barcelos (que hoje é dono da Sigma), que era muito amigo e almoçávamos sempre juntos. Ele me convidou para fazer um teste na SC. Assim eu comecei a dublar. Meus primeiros trabalhos foram na SC (que antes de fechar virou Megasom). Eu só fui ter meu primeiro papel principal com três anos de dublagem - de início paguei muito mico fazendo papéis secundários. Mas, com o tempo, vão te dando papéis melhores e é logico que isso vai depender de seu trabalho como ator.
Quando foi o seu primeiro contato com os desenhos?
Os desenhos são minha grande paixão, é a coisa que eu mais gosto de dublar. Eu falo isso porque, modéstia à parte, Deus me deu a facilidade de criar novas vozes para várias animações. Um dos primeiros testes que fiz foi para fazer o Roger Rabbit, do Spielberg - o próprio Spielberg mandou um fax, que eu guardo até hoje, me confirmando no papel. Resumindo, eu adoro dublar desenhos, porque posso criar vozes novas e desenvolver um trabalho legal de criação como ator.
Você já fez muitos desenhos?
Sim, muitos. Eu dublei o George Jetson (Os Jetsons), o Catatau (Zé Colméia) e o Michelangelo (Tartarugas Ninjas) entre outros.
E como foi o seu primeiro contato com as produções japonesas?
Tudo começou depois de uns três anos de dublagem. Era época do sucesso do Jaspion e Changeman. Eu passei fiz o teste para dublar o Metalder e passei. Quando fui dublá-lo, morri de medo. Eu pensava: “como é que eu vou me virar, vou ter que escutar em japonês?”. Pois para quem está começando é muito difícil dublar séries japonesas. Primeiro porque que a língua é muito diferente, então não tem como medir as pausas direitinho. Com muito custo fui me adaptando. Entre outros que eu fiz estão o Siegfried dos Cavaleiros do Zodíaco, o Olho de Tigre de Sailor Moon SuperS, o Grande Olho no programa da Kira, algumas participações em Dragon Ball Z e por fim, e o que mais gostei, o Kenshin de Samurai X.
Como foi fazer o Siegfried?
Eu adorei fazê-lo. Pena que durou pouco. Bem que Cavaleiros podia voltar, eu iria adorar fazer novamente o Siegfried.
Como surgiu a oportunidade de fazer o Kenshin?
Este foi um dos meus grandes trabalhos. Foi até um acaso meio diferente: num belo dia cheguei na BKS e minha escalação estava lá para fazer o Kenshin sem nenhum teste prévio - junto com Sanosuke, que era o Amajones, e a Kaoru, que foi feita pela Denise Popitz. E era divertido pois nós dublávamos juntos e eu gosto muito disso, enriquece muito o trabalho.
O que foi Samurai X significou para você?
Samurai X é um dos desenhos mais bem feitos, no que se refere a produção e visual. Tudo é fantástico, eu tiro o chapéu para seu criador. E um dos grandes lances de Samurai X é a ausência daquela característica agressiva, que normalmente os desenhos japoneses têm - apesar de também ter o lado das lutas, o Kenshin tem um lado muito humano e doce que eu me indentifico também. Sabe aquela coisa de brigar pela justiça custe o que custar. O Kenshin me insinou muito como personagem, e eu pude dar um pouquinho de mim a ele. Acho que passei um pouco do meu lado meio louco, meio indignado com as coisas que acontecem no mundo para ele, afinal eu venho de uma geração que não concordava com o caminho que a hunidade tomava, isso no final dos anos 70. Só o fato do Kenshin ter uma espada com a lâmina ao contrário já mostrava sua preocupação de lutar pela justiça sem que houvessem mortes.
Você acreditava no sucesso do Samurai X, mesmo sendo um desenho que falava sobre a história do Japão?
Claro, eu acreditei muito. Apesar de falar do passado japonês, eu consegui ver claramente toda essa história japonesa. E o que é mais bacana, é todo o trabalho visual, a magia que estava envolvida na história e a boa resolução de cada capítulo.
Fora o Kenshin teve algum outro personagem que você curtiu em Samurai X e até gostaria de dublar?
Olha eu gosto de todos. Cada um tem uma característica própria: o Sanosuke eu acho bacana, por ser mais energético e espontâneo. Mas eu estou muito contente de ter dublado o Kenshin, e não queria dublar outro não.
Tem um capítulo que você gostou mais?
Gosto de toda a série. Cada episódio tem uma boa resolução e todos uma margem de criação legal, de colocação de voz e tudo mais. No início, eu tinha uma grande preocupação de deixar a voz do Kenshin um pouco mais jovem - apesar que, depois eu vi alguns episódios e acho acabei estrapolando um pouco.
Como seu filho agiu ao saber que seu pai era o Kenshin de Samurai X?
Ele curti não só o Samurai X, mas todos os outros personagens que faço. Sempre que passa qualquer desenho na TV ele me chama para ver também. E é legal toda essa nova geração ver todas essas produções japonesas, com vozes brasileiras. Vamos valorizar a nossa língua, vamos dar valor no que é da gente.
Houve algum problema com a adaptação de Samurai X?
Um dos pricipais problemas da dublagem destes desenhos japoneses é a adaptação. Os tradutores têm uma certa dificuldade para fazer esse tipo de trabalho e para nós, dubladores, a grande dificuldade é com a sicronia que temos que ter com esses desenhos, pois a articulação da boca do japonês é completamente diferente do português. Então, a preocupação tem que ser melhorar a tradução e a adaptação dos animes - eu mesmo fui obrigado a cortar ou reescrever alguns diálogos.
O que você acha dos animes se comparados aos desenhos produzidos na Europa e nos EUA?
Os desenhos japoneses trazem muitas vezes uma mensagem ligada à própria cultura do Japão. Por exemplo, alguns personagens são muito estranhos, os vilões não precisão ser necessáriamente feiosos ou normais. É o caso do meu trabalho em Sailor Moon SuperS, onde eu faço o Olho de Tigre. Houve uma série de brincadeiras quando vimos os personagens. Eu falei: “Eu não vou dublar esse personagem, é uma moça! Olha a roupa dele!”. Mas a diretora explicou que realmente eles eram homens, só que com alguns problemas. (risos)
Um dos seus primeiros trabalhos em séries japonesas foi com a live-action Metalder. Hoje estamos carente dessas produções por aqui, você acha que elas devem voltar para a TV brasileira?
Acho que deve sim! Essas séries fazem parte da história de uma geração, que foi muito influenciada por esses heróis. Eu espero que voltem, talvez possa ensinar algo mais para gente. Eu queria aproveitar a oportunidade e deixar aqui o meu obrigado pelo o apoio dado pela Henshin aos dubladores.
Ouça aqui o Tatá dublando o Kenshin. (MP3)



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