Marco Ribeiro é dublador ultra-conhecido entre os fãs de anime. Ele fez a voz de Yusuke Urameshi em Yu Yu Hakusho. Quem é que não se lembra dele dizendo “Não conheci o outro mundo por querer”? Hoje, além de emprestar sua voz a personagens de filmes e desenhos, ele é dono de um estúdio de dublagem no Rio de Janeiro, o Audionews. Nessa entrevista, ele nos conta um pouco sobre os bastidores da dublagem e como foi fazer um personagem inesquecível como o Yusuke.

Além do Yusuke, quais outros personagens você dublou?
Em desenho japonês eu fiz Samurai Pizza Cats, mas não me lembrou qual personagem, só sei que era um dos três principais. Também dirigi o comecinho da dublagem de Ultraman Tiga. Fora isso, fiz o Rafael das Tartarugas Ninja, o Dylan em Barrados no Baile, sempre dublo o Jim Carey, o Antônio Bandeiras e o Tom Hanks. Agora estou lembrando que há uns três anos fizemos um teste para Ranma 1/2 com a Tikara Filmes. Só que eles tiveram uns problemas, acho que não conseguiram vender a série, e no fim não dublamos.
Como foi fazer Yu Yu Hakusho?
Foi bem difícil, porque eu ouvia em japonês. Os idiomas são muito diferentes, o cara falava cinco palavras que em português eram só três. A gente tinha que esticar o texto para caber. O bom é que pudemos usar bastante gírias. Deu para brincar bastante com o personagem.
Você acredita que essa dublagem “especial” contribuiu para o sucesso do desenho?
Acho que ajudou muito. A gente usou uma linguagem que as pessoas usavam. O adolescente fala daquele jeito, por isso se identificou com o desenho. Eu lembro que era a época do “Ah, eu tô maluco!” e colocamos isso na torcida do torneio. Foi bem divertido. E parece que o pessoal gostou disso, até hoje recebo e-mails comentando e dizendo que essas brincadeiras davam uma graça especial ao desenho.
Você recebe mensagens de fãs de Yu Yu até hoje?
Recebo bastante e-mails, procuro responder todos. Muita gente me pergunta como se faz para ser dublador e coisas do tipo. Na época de Yu Yu Hakusho recebemos muitas cartas, tinha até umas meninas que ligavam sempre, algumas faziam até interurbano. Acho que o pai descobriu e daí elas pararam de ligar… (risos)
Você sente que os fãs de animes reconhecem mais o trabalho de vocês?
Com certeza. Eles são mais receptivos, têm um carinho muito grande pelo que você faz, te tratam como estrela. Em outro tipo de trabalho ninguém dá importância. Pena que poucos animes vêm para o Rio, a maioria é dublado em São Paulo. Até tentamos fechar contrato para dublar alguns animes aqui na Audio News mas acabou não dando certo. O pessoal gosta bastante de dublar animes, porque normalmente são séries longas. Embora esses desenhos às vezes dêem prejuízo - porque tem muitos personagens fixos - são bem interessantes.
Qual é a principal diferença entre dublar um desenho americano e um japonês?
A diferença básica é o idioma. Mas a cultura também é diferente. Às vezes temos que suavizar algumas coisas nos desenhos por causa disso. Em Yu Yu tinha um personagem meio andrógino, num episódio ele até colocava a mão no meio das pernas do outro personagem para ver se era homem ou mulher. Também teve uma cena em que o Yusuke apertava os peitos da Keiko. A gente tentava suavizar nas falas, apesar da imagem.
E como foi fazer Ultraman Tiga?
Foi um trabalho legal. A gente tentou ter o máximo de cuidado para não errar nada, nenhum nome de personagem, nenhum termo. Conversamos bastante com o cliente. Depois dele parece que vinha o Ultraman Dyna para a gente, mas não sei o que aconteceu.
Você curte séries estilo Ultraman?
Eu sempre curti mais Ultraman do que Spectroman. Também gostava muito de desenhos animados estilo Speed Racer e Judoca. Na minha época não tinha tantos desenhos japoneses quanto hoje. Agora, uma coisa que eu não gosto muito não só nos desenhos japoneses, mas em todos, é que hoje em dia eles têm muita violência. O Judoca, por exemplo, tinha brigas mas não era muito violento, não ficava espirrando sangue.

Yu Yu também era violento, não?
Yu Yu Hakusho era violento, mas fazia parte do contexto. Tinha um torneiro do bem contra o mal, eles tinham uma boa razão para lutar. E por outro lado tinha a parte cômica. A violência era só dentro da arena. O desenho também descrevia os problemas da adolescência.
Você sente que as pessoas estão prestando mais atenção à dublagem?
Sim, principalmente agora que os atores famosos estão dublando filmes da Disney.
E você acha que isso aumenta a exigência em relação ao trabalho dos dubladores?
Acho que sempre houve a vontade dos dubladores de fazer um bom trabalho. Não importando para onde, nem o que é, você sempre tem que fazer um trabalho bem feito. Teve muita coisa que a gente melhorou com a dublagem. Acho que a exigência cresceu em relação às empresas de dublagem. Hoje em dia a empresa que não estiver bem antenada e fazendo um bom trabalho está perdida. A boa tradução é primordial, também a escolha das vozes. Hoje existem mais empresas e os clientes têm mais opções, por isso é preciso oferecer um trabalho melhor.
E que conselhos você dá para quem quer ser dublador?
Em primeiro lugar, para dublar o que menos importa é a voz. Você vai dublar todo o tipo de gente e sua voz vai se encaixar a alguma delas. E depois você precisa fazer um bom curso de teatro e se certificar de que o curso é reconhecido pelo MEC, senão não adianta nada. Além disso, o dublador tem sempre que estar antenado, procurar outros cursos, como o de rádio teatro, que dá uma boa base para qualquer ator. E, claro, gostar do que faz, que é o mais importante.

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