Sim, as vozes do Gohan e do Goten em Dragon Ball Z são feitas por uma mulher. Ela é Fátima Noya, uma dubladora com muita experiência em animes, tendo feito a voz da Anne das Guerreiras Mágicas de Rayearth, do Oolong em Dragon Ball, a Cherry em Saber Marionette J, a Sailor Saturno de Sailor Moon, o Kiki, o Makoto e o Shun criança em Cavaleiros do Zodíaco, a Enfermeira Joy de Pokémon e a Lisa dos Combo Rangers. Além de animes, ela ainda dubla o Tomy dos Anjinhos, a simpática tartaruga Franklin e a Julia do Quebra-cabeça. Nessa entrevista, Fátima fala um pouco sobre seus personagens, sua carreira e seu filho, que também é dublador.
Como você consegue fazer sua voz ficar parecida com a de um menino pequeno como o Gohan?
É um exercício de atriz. É trabalhar bastante a voz, ver as possibilidades que você tem, saber mudar bastante, uma hora fazer uma moça, depois uma senhora, um menininho, um bebezinho… É uma técnica que você vai desenvolvendo com o tempo.
Quando você descobriu que tinha jeito para fazer esse tipo de voz?
Isso foi antes de começar na dublagem, na época que eu fazia teatro. Eu também fazia locução e me pediram para fazer o Zé Gotinha. Eu topei, mas não sabia como ia ser. Na hora vi o desenho, aquela gotinha da vacina, e saiu a voz.
Você gosta de fazer esse tipo de personagem? Como é fazer personagens tão diferentes como a Anne e o Gohan?
São coisas completamente diferentes. Mas é aí que entra o trabalho do ator. As pessoas pensam que na dublagem você tem que ter a voz bonita. Mas não é a questão. No dia-a-dia nem todo mundo tem voz de galã. Você tem é que ser um bom ator. A dublagem é um ramo muito interessante das artes dramáticas, pois é muito específico. Você tem que procurar uma emoção, um tempo, seu reflexo tem que estar a mil. É muita coisa ao mesmo tempo. Às vezes o ator demorou semanas para chegar naquele tom e você tem que conseguir isso lá na hora. O grande barato da dublagem é esse, você nunca tem uma rotina, é tudo rápido, você nunca sabe o que vai interpretar.
O que você acha mais interessante no Gohan?
Eu gosto do Gohan porque ele é guerreiro e é ousado. Ele tem um otimismo, que é uma coisa muito legal e que eu procuro ter. O Gohan tem uma vivacidade, uma alegria, um companheirismo com os amigos. Esse amor com o pai e com a mãe. E eu me inspiro algumas vezes no meu filho. Eu acho legal quando posso pegar alguma coisa do meu filho. No desenho do Franklin, eu me inspiro muito no Gabriel, sempre acontecem algumas coincidências. Não adianta você tentar fazer a voz do menino, você tem que ter o jeito do menino. Não adianta eu querer fazer voz de jovenzinha, não é só afinar a voz, tenho que procurar alguma coisa na musicalidade, no tom, no jeito de falar, de jogar com a frase. O Gohan é um personagem que me trouxe muito retorno. Eu recebi e-mails de gente de todas as idades, de crianças, homens casados e com filhos que amam ele. Esse retorno é muito legal, porque a dublagem é um trabalho anônimo, as pessoas ouvem sua voz mas não sabem quem você é. E é muito legal quando tem esse retorno.
Como você foi chamada para fazer o Gohan?
Eu já vinha fazendo voz de meninos. Aí pintou um teste e fui fazer. Na verdade eu nem sabia que era para Dragon Ball Z, antes eu já fazia o Oolong quando Dragon Ball foi dublado na Gota Mágica. Eu lembro que quando eu escutei a voz original não tive muita dificuldade para fazer. E fui escolhida.
Tem diferença em fazer o Gohan e o Goten?
Tem. Eu acho o Goten mais nervosinho. O Gohan é mais meigo.
E dos outros personagens que você fez?
A Cherry eu acho um amor. Eu gosto muito da Lady Oscar da Rosa de Versailes, foi um trabalho muito legal, porque eu tinha que trabalhar bem a voz. A Hotaru, que é a Sailor Saturno, também é muito interessante, porque ela tem duas faces, aquele que tem voz de meininha, mais calminha. Depois ela muda e fica com a voz mais forte. Eu adoro o lado mal dela.
E a Anne das Guerreiras Mágicas?
A Anne eu achava bem legal. Ela era a mais centrada das três Guerreiras. A mais sensata e também a mais intelectual. Eu não me lembro muito dela.
Você acompanha os desenhos que você faz?
Algumas coisas, porque não tenho muito tempo. Vejo muito pelo meu filho. Ele adora Dragon Ball Z, acompanha tudo. Até se revolta e reclama comigo quando a gente comete algum erro na dublagem.
Então ele adora que você faça as vozes, né?
Ah, ele adora. Na verdade, ele também é dublador. Ele faz várias séries para a Disney.
Quantos anos ele tem?
Ele tem 12 e começou a dublar para valer mesmo faz uns dois anos. A primeira coisa que ele fez foi com uns sete anos, eram coisinhas pequenininhas. Hoje em dia ele já dubla bastante.
E foi você que levou ele para dublar?
De certa forma sim. Ele sempre me acompanhou, sempre gostou e eu senti esse interesse dele. No começo ele tinha vontade, mas dava umas esnobadas. Mas eu nunca forcei - até dizia que ele não precisa fazer se não quiser. Mas ele gosta. E isso dá um senso de responsabilidade.

E você, como começou a dublar?
Eu comecei a dublar quando vim para São Paulo. Eu sou do Sul, mas lá eu só fazia teatro. Quando vim para São Paulo tive a oportunidade de começar a dublar. Mas era uma coisa que eu sempre quis fazer desde criança. Eu nem sabia o que era dublagem, mas eu escutava e sabia que não era a voz original e queria fazer aquilo.
Você gosta mais de dublar do que atuar?
Minha formação é de atriz, antes de tudo eu sou uma atriz de teatro. Estou afastada, mas tenho um projeto para o ano que vem. A dublagem é um trabalho maravilhoso, mas é um ramo para quem faz artes dramáticas.
E o que você acha mais difícil, fazer dublagem ou teatro?
A dublagem é o seguinte: se você já tem um jeito para a coisa só o começo é difícil, depois você logo pega o jeito. O teatro é um pouco mais complicado, porque tem mais elaboração, você pode ficar um ano trabalhando o texto. Você faz ao vivo para as pessoas. A dublagem não, você pode errar um monte de vezes e gravar de novo. O teatro é um pouco mais elaborado. Mas depende, nenhuma das duas coisas são tão fáceis.
O que você acha que tem de diferente entre os desenhos japoneses e os americanos?
Eu gostaria de ter mais tempo para entender essas séries, porque eu não entendo muito. Mas acho que tem muita violência. O Gohan apanhava muito. Em umas cenas que fiz tinha uns adultos enchendo aquela criança de socos. Eu não gosto muito disso. Mas as criançada gosta. Talvez seja uma forma delas extravazarem essa energia só ali no desenho e não precisar fazer isso na vida real. Eu gosto de desenhos mais antigos. Mas talvez eu precise entender um pouco mais. Meu filho adora e é uma criança super saudável.
Então você não vê problema em seu filho assistir a esses desenhos violentos?
Não, imagina. Algumas coisas que passam na TV mais apelativas, tipo Gugu, Ratinho, eu acho meio ruim e falo para meu filho mudar de canal, pegar um livro. Agora os desenhos, acho bárbaro, porque eu fui descobrir que meu filho tinha talento para desenhar através desses personagens.
Clique aqui para ouvir um recadinho da Fátima (WAV). Ouça o Kamehameha do Gohan! (WAV)

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