Estar na carreira há mais de 30 anos não é para qualquer um. Mas Cecília Lemes chegou lá e é uma das maiores dubladoras do país, dando voz a personagens como Lucy, das Guerreiras Mágicas de Rayearth, a Ritsuko, de Evangelion, e da Chiquinha, do Chaves. Nessa conversa pra lá de descontraída, Cecília divide um pouco da sua experiência com a gente, fala o que pensa dos desenhos japoneses e de sua relação com os fãs.
Quais personagens de animes você já fez?
Eu fiz a Lucy de Guerreiras Mágicas, a Ritsuko de Evangelion e a mãe da Bulma em Dragon Ball Z. Fora de animes, eu fiz a Chiquinha do Chaves. Mas deve ter mais um monte, só que eu não estou lembrando.
E o que você mais gosta nesses personagens?
Na Lucy era que ela estava sempre lutando, sempre preocupada com as amigas delas. E fazer uma série é muito diferente de um filme. Como são muitos episódios, você acaba se apegando ao personagem, pegando o jeitinho dele. Dá até para adivinhar o que ele vai falar.
Você acha que os desenhos japoneses têm algo de diferente em relação aos americanos?
Tem sim. O que me chamou mais a atenção é a sensualidade que eles conseguem passar com o desenho. Às vezes eu até penso se alguns desenhos são feitos para criança, porque tem uma sensualidade muito forte. É bem interessante. Evangelion vai um pouco nessa linha, né? É mais adulto, você gostou? Gostei. Dava para ver que o desenho era adulto. Às vezes era até duro entender o que estava acontecendo, mas era bem legal.
É mais complicado dublar um desenho falado em japonês do que em inglês ou espanhol?
Acho que não. Apesar do personagem falar em japonês, dá para você perceber o jeitinho dele. Depois de 32 anos de carreira fica fácil. Por exemplo a mãe da Bulma, você via que ela era extrovertida, bem espivetada. Já a Ritsuko era mais séria. E você tem a obrigação de seguir o tom do personagem para não descaracterizá-lo.
Você disse que dubla há 32 anos, como foi que você começou?
Eu comecei aos 9 anos, quando fiz o filme A Marca da Ferradura com a dupla Tonico e Tinoco. Nessa época eu nem fazia idéia do que era dublagem. Aí, o diretor chegou para mim e disse “quando você assistir ao filme não fica estranhando que a voz não vai ser a sua. Porque quando a gente filma o som não é aproveitado, aí vamos para o estúdio e uma mulher vai te dublar”. Eu chorei muito, onde já se viu uma mulher fazer minha voz? Então o diretor me mandou ir ao estúdio para fazer um teste e ver se eu mesma podia me dublar. E como eu já havia feito o filme, sabia todas as falas e ficou fácil. E aí comecei a dublar. Como tinha poucas crianças dublando e mulheres que faziam as vozes infantis, eu ganhei vários papéis.
Durante esse tempo todo de dublagem você nunca pensou em mudar de trabalho?
Nunca, eu não consigo me imaginar fazendo outra coisa.
E suas filhas, se divertem em saber que a mãe faz as vozes dos desenhos?
Elas sempre curtiram a mãe sendo dubladora. Minhas filhas adoram falar para as amigas que a mãe delas é a Chiquinha. Às vezes o pessoal nem acredita…
E quanto aos fãs, você tem contato com eles?
É muito legal ter reconhecimento dos fãs. E os desenhos japoneses é que me deram reconhecimento. Tem gente que vem falar comigo da Chiquinha, conheci um pessoal de Fã-clube, mas não é a mesma coisa. Dos fãs de anime eu recebo cartas, eles querem tirar foto comigo. É muito gratificante, porque a dublagem é um serviço anônimo. Com essas séries japonesas é que descobriram a gente. Ano passado eu até ganhei um prêmio em uma convenção de anime. E nunca ia imaginar que isso pudesse acontecer. É uma satisfação muito grande.
Que conselho você dá para quem quer ser dublador?
Não sei se é bem um conselho, mas você querer já é o primeiro passo. Se você gosta da coisa, seja ela qual for, já é um passo. Mas, para ser dublador, você tem que ser desinibido, tem que saber falar, saber interpretar e tem que ter bom reflexo.

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