
Marcelo Campos não só é um dos principais e mais requisitados dubladores de São Paulo como também traz em seu currículo inúmeros super-heróis japoneses. O último grande herói que Marcelo fez foi Trunks, o Super Saiyajin que vem do futuro ajudar Goku na luta contra o Dr.Gero e seus andróides – entre eles o terrível Cell. Ele nos conta um pouco como foi fazer esse personagem e tantos outros que ele já dublou em seus oito anos de carreira, incluindo outros sucessos como Cavaleiros do Zodíaco e Shurato.
Qual foi a sua primeira série de super-heróis japoneses que você dublou?
A primeira foi Winspector. Foi um dos trabalhos mais empolgantes que fiz, por que eu estava muito envolvido com a sua dublagem e às vezes eu até a digiria. O elenco era muito bom, tinha o Hermes (Barolli, que fez a voz do Seiya em Cavaleiros do Zodíaco), o Amajones (que fez o Hayata, na segunda dublagem de Ultraman e o Yamcha na primeira série Dragon Ball) – e que também estava começando na dublagem. Winspector foi também o primeiro trabalho que me envolvi em estabelecer padrões: nomes dos personagens, nomes das armas e tudo mais. Na época eu tinha apenas seis meses de profissão – isso lá por 93. Além disso o Lyuma (ou o Fire) foi o meu primeiro personagem principal.
Mas você voltou a fazer o Fire em Solbrain…
É, depois eu fiz participações no Solbrain, quando o Fire aparecia. E sabe, acho que de todas as séries e filmes que já dublei, o ator que fazia o Lyuma foi o único japonês talentoso que já dublei.
Como foi dublar Cavaleiros do Zodíaco, uma série que você fez três personagens importantes?
No começo da dublagem de Cavaleiros do Zodíaco eu não sabia se meus personagens eram fixos ou não. Eles apareciam e sumiam o tempo todo. O primeiro foi o Jabu, mas aí ele sumiu logo no começo da série. Então fiz o Misty, que tinha uma interpretação mais andrôgena para manter todo aquele ar de mistério dele. O Cavaleiro seguinte que fiz foi o Mu de Áries. Ele já era bem diferente: era o mais equilibrado de todos. Era como se ele tivesse um conhecimento pleno do que estava acontecendo – como um Cavaleiro Jedi. Acho que o Mu foi o personagem mais centrado que já dublei. Você tem que controlar a sua ansiedade quando entra no estúdio para não passar isso para o personagem.
E o episódio de Cavaleiros que você ficou o tempo todo falando com você mesmo?
Isso foi no episódio que o Mu e o Jabu se encontraram. Eu cheguei lá na Gota Mágica e o Baroli (Gilbeto Baroli que dirigiu a dublagem de Cavaleiros e também fez o Mestre Ares, o Saga de Gêmeos e o Kanon – O Dragão Marinho entre outros) me falou: “Marcelo, você vai falar com você mesmo hoje”. Mas os dois são muito diferentes, eles têm personalidades diferentes demais. E por isso mesmo fiz as falas de cada um deles separadamente, por causa de suas personalidades tão distoantes.

O que você tinha em comum com Mu, o Jabu e o Misty?
O Jabu era muito mais arisco e muito invocado – por isso ele era mais parecido comigo. O Mu já era muito diferente de mim. Ele era bem centrado na vida, sabia o que queria, coisa que eu não consigo ser. O que eu mais gostava no Misty era a sensualidade dele que confundia muita gente – e eu gosto de confundir as pessoas.
Por que você foi escalado para fazer o General Blue em Dragon Ball, lá na Gota Mágica?
Eu e o Baroli admiramos muito o trabalho um do outro. E aí que Dragon Ball começou a ser dublado e não havia um personagem para mim. Foi aí que o Baroli achou o General Blue para mim. E ele me escolheu também por que o personagem tinha uma necessidade de “pirar” durante a sua dublagem. A gente dava várias gargalhagadas com as investidas dele para cima dos caras. O Blue foi o primeiro personagem de desenhos japoneses claramente gay que fiz.
E o Guru Cléf de Guerreiras Mágicas de Rayearth e o gato Arthemis de Sailor Moon?
O Guru Cléf eu nunca soube se ele era alto ou baixo… E isso influência na dublagem, por que de acordo com o tamanho do personagem você faz uma impostação de voz. E aí eu dublei o Cléf só pela expressão dele. O legal dele era que ele não tinha muita paciência mesmo sendo um “Mestre” e sempre dava umas broncas nas Guerreiras Mágicas. Já o Arthemis de Sailor Moon eu me lembro pouquíssimo. Eu fixei muito pouco ele, talvez por que não dublei muitos episódios com ele.
Chegou a vez de Shurato. Como foi a dublagem desse anime?
Fazer o Shurato foi uma briga. Eu não trabalhava mais na Dubla Vídeo por que havia brigado com o pessoal de lá. Mas acabei voltado para fazer o Shurato por causa da insistência da diretora de dublagem da casa, a Leda Figueiró, que me deu total liberdade para desenvolver o personagem – inclusive aquele grito que virou marca registrada dele. Ela me pediu algo próximo dos filmes de Kung Fu e ao mesmo tempo pouco realista, já que se tratava de um desenho animado.
Você lembra de mais algum herói de desenho japonês importante que você tenha feito?
Teve o Terry Bogard do Fatal Fury. Ele foi o primeiro personagem de desenho animado que fiz que não era caricato. Ele era mais humano. Ele também foi o único desses personagens que fiz que tinha aquele “mito do herói ” que sai de casa e parte em sua jornada em busca dele mesmo.
Em Supercampeões você fez algum personagem?
No Supercampeões eu fazia o goleiro Benje Wakabayashi. Ele foi o primeiro rebelde que dublei. Tá certo que depois que provou seu valor ele mudou. Este também foi o primeiro trabalho sobre futebol que fiz – e eu não sabia nada sobre futebol, nem termos, regras… nada…
Em Pokémon e Samurai X você dublou alguém?
No Pokémon eu fiz um personagem só lá na BKS. Ele se passava de Treinador para roubar as insígnias do Ash. Pokémon foi o único grande sucesso dos desenhos japoneses que eu não participei muito. No Samurai X eu fiz o Shineider, um personagem que durou uns oito episódios que faziam parte desta última leva e que foram dublados lá na Sigma…
Finalmente, vamos falar sobre o Trunks, um dos personagens principais e mais querido pelos fãs de Dragon Ball Z? Como ele apareceu na sua vida?
Totalmente acidental. Como eu não sabia o que era esse personagem eu demorei para gostar dele. Levei uns dez capítulos para a começar a gostar dele, “defende-lo” – como se diz em dublagem. Mas isso demorou um pouco, precisei saber o porquê que ele tinha vindo do futuro e tudo mais, e foi aí que descobri a grande importância dele na série. Até aí eu não via a hora de parar de dublá-lo. Além disso eu já estava meio desacostumado com as dificuldades de dublar desenhos japoneses. O Trunks não tinha “deixas” para parar de falar. E o desenho vinha em espanhol e eles não dão importância à pequenos detalhes de sincronismo que a gente dá e assim não dava para usar a dublagem em espanhol como voz guia – foi quase uma volta aos tempos quando a dublagem era realizada sem “som guia” e só com a imagem.
E o que mais te atraiu em fazer o Trunks?
Era muito legal o fato dele ter grandes conflitos com o pai – o Vegeta -, ao mesmo tempo que ele tinha uma importante missão ajudou a me interessar muito mais por ele. Agora que cansa, cansa eles não matarem o Cell. a coisa se estendia muito. Passava um episódio atrás do outro e eles contiuavam a lutar contra o Cell.
Mas você acabou curtindo fazer o Trunks…
No fim eu gostei do Trunks. Ele é um personagem bem construído, com seus objetivos bem definidos e seus conflitos – ele sempre poupava o pai da humilhação que o filho havia superado ele em força – eram justificáveis. O que cansava mesmo, era que durante a participação dele na história ele ficou em cima do “problema ” Cell. Hoje já até sinto falta dele, já que a série já foi toda dublada.
Depois de usar a Cosmo Energia em Cavaleiros do Zodíaco e o Soma em Shurato, como foi agora usar seu Ki em Dragon Ball Z?
Esse negócio de Ki é muito louco. Eu fiz uma aula de Aiki-Do e assisti algumas outras e isso me deu uma noção dessa energia que aparece em desenhos japoneses. O Mestre da escola me deu uma demonstração de que o Ki existe mesmo, mas claro que no desenho é bem fantasiado.

BANCO DE DADOS
Nome: Marcelo Campos
Data de Nacimento: 14.06.69
Principais Personagens: Trunks (Dragon Ball Z), Mu de Áries (Cavaleiros do Zodíaco), Jabu de Unicórnio (Cavaleiros do Zodíaco), Misty de Lagarto (Cavaleiros do Zodíaco), Shurato, Guru Cléf (Guerreiras Mágicas de Rayearth), Arthemis (Sailor Moon), General Blue (Dragon Ball), Lyuma/Fire (Winspector), Benje Wakabayashi (Supercampeões), Terry Bogard (Fatal Fury).

